Maria da Conceição Pinheiro Araújo

Edith Mendes da Gama e Abreu possui uma intensa produção jornalística. Escreve para diversos jornais da Bahia e de outros estados do Brasil. Nesta seleção constam 7 textos da escritora recuperados do jornal O Imparcial publicados entre os anos de 1931-40 na Bahia. Nestes textos a escritora trata sobre questões morais, históricas, sociais, filosóficas, religiosas, mas, principalmente, sobre feminismo e questões relativas aos direitos civis e políticos das mulheres.

Educação feminina é um tema constante. Edith argumenta que apenas os insensatos e os levianos consideram a mulher como inferior intelectualmente e afirma que a suposta inferioridade mental das mulheres se dá por conta daquilo que ela chama de força maior ou seja, uma educação equivocada, ou, no caso de muitas, a falta dela. Ela reivindica para a mulher o direito à educação e ainda mais, uma educação que permita às suas companheiras libertar-se de normas preestabelecidas, de praxes anacrônicas. Critica aqueles que, em nome da religião, promovem e justificam a inferioridade da mulher baseados na premissa de que qualquer coisa que a mulher faça desvinculado do âmbito religioso está fora do seu fim n’este mundo.

Edith mostra-se bastante lúcida ao trazer à tona a discussão acerca do dogma religioso que leva os católicos a assumirem uma atitude preconceituosa em relação ao lugar que deve ser assumido pela mulher, justificada pelo amor e devoção à religião. Neste momento, o posicionamento da escritora parece-nos bastante avançado para uma época onde as feministas baianas tinham como elementos propulsores do seu feminismo a moralidade e a religião.

Outro ponto de reflexão é o projeto feminista de emancipação feminina. Afirma a oradora que esta Nova campanha abolicionista tem como elementos basilares o altruísmo, a justiça e prima pela melhoria social. Dirige-se ainda aos quais ele considera os opositores ao equalitarismo emancipador afirmando categoricamente que estes não representam empecilho para a jornada. Segundo Edith, a maneira de agir das feministas será com brandura, com suavidade, com mansidão. Observamos, nesta fala, a confirmação da imagem que deveria refletir a feminista e que consolida um modelo cultural e socialmente construído, que, infelizmente, as feministas baianas da década de 30 não conseguiram destruir, pelo contrário, reafirmaram e transformaram em elemento agregador do seu discurso. A fala feminina revela o mar de insegurança e, ao mesmo tempo, a necessidade de aceitação de uma imagem de feminista que não desconstruisse o modelo feminino tradicional. Este posicionamento representava uma tentativa de atrair os homens no sentido de legitimar o discurso feminista.

Edith Gama discorre, ainda, sobre a questão da paz, se posicionando contra as guerras e as revoluções. Neste aspecto, ela acena para um certo pacifismo:

sou, por índole, avessa às revoluções, (...) não podem as revoluções melhorar a sociedade porque as revoluções são a guerra

 

A questão dos direitos políticos da mulher é outro ponto de destaque. A autora questiona os argumentos utilizados pelos opositores que dizem defender o próprio interesse feminino ao negar à mulher o direito ao voto. Edith afirma que os argumentos utilizados pelos homens são um verdadeiro embuste que tenta manter a mulher no espaço privado. Argumentos do tipo: ameaça de abalo na estrutura familiar por causa da ausência da mulher no lar, ou ainda, a imagem imaculada da mulher não deveria se vincular com a farsa do processo eleitoral brasileiro. Esta era a estratégia adotada pelos anti-sufragistas que se sentiam atemorizados diante da possibilidades das mulheres adquirirem cidadania plena.

Tomando como parâmetro a nova concepção de vida da mulher, Edith defende que esta deve ser a única a decidir sobre as suas escolhas e convoca as mulheres a refletir sobre a importância do trabalho remunerado que funcionaria como uma espécie de libertação do jugo masculino. A autora lista atividades tipicamente masculinas que podem ser desempenhadas pela mulher ao lado dos tradicionalmente tidos como de competência feminina. A inserção da mulher no espaço masculino deve ser respaldado, segundo Edith Gama, na Verdade que procura demolir as injustiças que a criaram.

Os temas abordados em sua obra evidencia um comportamento nada concordante com os parâmetros estabelecidos para a mulher de então. O futuro da figura feminina estava determinado: ser esposa e mãe. Edith Gama questiona com intrepidez este destino imposto à condição feminina.